Língua de sinais

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Uma língua de sinais (português brasileiro) ou língua gestual (português europeu) é uma língua visual, que surge nas comunidades de pessoas surdas ou se deriva de outras línguas de sinais. Assim como as línguas orais-auditivas, uma língua de sinais é considerada pela linguística como língua natural, pois atende a todos os critérios linguísticos como qualquer língua. Por seu canal comunicativo ser diferente das línguas orais-auditivas, as línguas de sinais são denominadas como línguas de modalidade visuoespacial.[1]

Os sinais, ou seja, as palavras, são articulados essencialmente pelas mãos e percebidos através da visão. Em uma língua de sinais, os sinais não são gestos. Os sinais são símbolos arbitrários, legitimados e convencionados pelos falantes de uma língua de sinais, assim como as palavras são em uma língua oral.[2] Por meio de uma língua de sinais, o surdo ou pessoa com deficiência auditiva têm acesso à informação e à comunicação. Há no mundo muitas línguas de sinais e em muitos países línguas de sinais têm recebido o status de língua oficial.

Durante muitos anos, o oralismo, técnica defendida por Alexandre Graham Bell, foi a única forma aceitável de/para comunicação com as pessoas surdas. O famoso Congresso de Milão, de 1880, teve um impacto negativo sobre as línguas de sinais no mundo. Nesse congresso, os presentes, influenciados pelas ideias de Graham Bell, decidiram pela proibição da língua de sinais como método de educação de surdos. Assim, a língua falada oralmente foi imposta às pessoas surdas, e decretou-se, sem fundamentação científica alguma, que o oralismo deveria constituir a única forma de ensino.[3] Diante disso, as línguas de sinais por mais de 100 anos foram violentamente proibidas e banidas dos espaços escolares.

Mesmo com a imposição do Congresso de Milão, as línguas de sinais resistiram. Com o passar dos anos, muitos linguistas se dedicaram a estudar diferentes línguas de sinais. O pioneiro foi o linguista americano William Stokoe, intitulado como o pai da linguística das línguas sinalizadas. Stokoe (1960)[4] concluiu que as línguas de sinais apresentavam aspectos linguísticos de uma língua genuína, no léxico, na sintaxe e na sua capacidade de gerar infinitas sentenças e que deveriam ser pesquisadas e estudadas pela linguística.[5]

Ao contrário do que muitos acreditam, a língua de sinais não é universal. Assim como as línguas orais, a variação linguística está presente também nas línguas de sinais. É grande a variedade de línguas de sinais ao redor do mundo. Segundo o site Ethnologue: Languages of the World, há mais de 140 línguas de sinais no mundo.[6] São línguas completas, com a sua própria gramática e léxico.

Cada país tem a sua, ou até mais de uma, língua de sinais. Tomando como exemplo alguns países lusófonos, vemos que utilizam diferentes línguas de sinais: no Brasil existe a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) e a Língua de Sinais Kaapor Brasileira,[7] em Portugal existe a Língua Gestual Portuguesa (LGP), em Angola existe a Língua Angolana de Sinais (LAS), em Moçambique existe a Língua de sinais moçambicana (LMS).

Assim como acontece nas línguas faladas oralmente, existem variações linguísticas dentro da própria língua de sinais, isto é, regionalismos e/ou sotaques.[8][1] Essas variações se devem a ligeiras diferenças culturais e influências diversas no sistema de ensino do país, por exemplo. Há também outros fatores que favorecem à diversidade e à mudança linguística, como, por exemplo, a extensão e a descontinuidade territorial e os contatos com outras línguas.[9] Além disso, deve-se levar em conta que diferenças culturais são determinantes nos modos de representação do mundo. Assim, os surdos sentem as mesmas dificuldades que os ouvintes quando necessitam comunicar com outros que utilizam uma língua diferente.[10]

Há também uma língua de sinais, análoga ao Esperanto, conhecida como Gestuno. O Gestuno, também conhecido como língua de sinais internacional, é uma língua artificial e é usada em convenções e competições internacionais, visando estabelecer uma comunicação internacional.[9]

Não se sabe quando as línguas de sinais se iniciaram. Mas, sua origem remonta possivelmente à mesma época ou a épocas anteriores àquelas em que foram sendo desenvolvidas as línguas orais.[11] Uma pista interessante para esta possibilidade das línguas de sinais terem se desenvolvido primeiro que as línguas orais é o fato que o bebê humano desenvolve a coordenação motora dos membros antes de se tornar capaz de coordenar o aparelho fonoarticulatório. As línguas de sinais são criações espontâneas do ser humano e se aprimoram exatamente da mesma forma que as línguas orais. Nenhuma língua é superior ou inferior a outra, cada língua se desenvolve e expande na medida da necessidade de seus usuários.

É comum aos ouvintes pressupor que as línguas de sinais sejam versões sinalizadas das línguas orais. Por exemplo, muitos acreditam que a LIBRAS é a versão sinalizada da língua portuguesa do Brasil; que a Língua de Sinais Americana é a versão sinalizada da língua inglesa; que a Língua de Sinais Japonesa é a versão sinalizada da língua japonesa; e assim por diante. No entanto, embora haja semelhanças ou aspectos comuns entre as línguas de sinais, devido a um certo contato linguístico, as línguas de sinais são autónomas, possuem estruturas gramatical própria, não derivam das línguas orais e possuem peculiaridades que as distinguem umas das outras e das línguas orais.[1][9]

A língua de sinais são completas em si mesmas, dispondo de recursos expressivos suficientes para permitir aos seus usuários expressar-se sobre qualquer assunto, em qualquer situação, domínio do conhecimento e esfera de atividade. Por meio de uma língua de sinais é possível criar poesias, contar e inventar histórias, discutir sobre filosofia, política, assuntos do cotidiano etc.[12] Emmanuelle Laborit, atriz surda, afirma no seu livro O Vôo da Gaivota, que tudo pode ser expressado por meio dos sinais, sem perder nenhum de conteúdo.[13] Mais importante, ainda: é uma língua adaptada à capacidade de expressão dos surdos.

A língua de sinais por muito tempo foi considerada uma língua ágrafa. Entretanto, hoje, segundo Barreto e Barreto (2015), existem vários tipos de escritas. Os principais sistemas de escrita e de notação criados para registrar as Línguas de Sinais, segundo os autores são: Notação Mimographie, publicada em 1822 por Roch-Ambroise Auguste Bébian; Notação Stokoe, publicado em 1960 por William Stokoe. Seu sistema de notação fonética tinha como objetivo chamar a atenção dos linguistas, que desconheciam a língua de sinais, e servir como sistema de transcrição para análise dos sinais; Hamburg Notation System (HamNoSys), sistema de notação fonética baseada na notação de Stokoe. Sua primeira versão foi publicada em 1984 pela Universidade de Hamburgo – Alemanha; Sistema D’Sign, publicada em 1990 por Paul Jouison. O sistema é capaz de transcrever frases inteiras da Língua de Sinais Francesa; Notação de François Neve, publicado em 1996 por Fançois Neves e desenvolvido a partir do sistema de Stoke; Sistema de Escrita das Línguas de Sinais (ELiS), criado em 1997 pela Profa. Dra. Mariângela Estelita Barros e posteriormente melhorado em 2008. O ELiS é um sistema de escrita linear da esquerda para a direita, representados por uma série de grafemas para representar quatro parâmetros da língua de sinais; Sistema de Escrita Signwriting, criado em 1974 por Valerie Sutton. Segundo Sutton, o Signwriting é uma escrita internacional. É o sistema de escrita da língua de sinais mais utilizado no mundo.[14]

Há também o Sistema de Escrita para Línguas de Sinais (Escrita SEL). O sistema de escrita foi desenvolvido pela Profa. Dra. Adriana S. C. 'Lessa-de-Oliveira em 1999 e posteriormente melhorado em 2011. A Escrita SEL foi desenvolvida para a Libras. Entretanto, segundo a criadora, pode ser utilizado para escrever outras línguas de sinais. Mas, em alguns casos é necessária adaptação simples.[15]

A difusão do alfabeto dactilológico, também conhecido como alfabeto manual, a pressuposição de que esse alfabeto é a própria língua de sinais, que há uma única língua de sinais e que essa língua é universal. No entanto, o alfabeto dactilológico é apenas um código de representação das letras alfabéticas, cuja função é a soletração de palavras das línguas orais, de algum vocábulo da língua oral que ainda não possua um sinal correspondente na língua de sinais, etc.[9]

De acordo com o Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), o alfabeto dactilológico usado atualmente no Brasil é um conjunto de 27 formatos, ou configurações diferentes de uma das mãos, cada configuração correspondendo a uma letra do alfabeto do português escrito, incluindo o “Ç”. O alfabeto manual também não é universal. Por ser convencionado, cada língua de sinais possui o seu alfabeto dactilológico. Há também o alfabeto manual para pessoas surdas-cegos. Nesse caso, os indivíduos os surdos-cegos precisam pegar na mão de quem está sinalizando.[9]

É muito aconselhável soletrar devagar, formando as palavras com nitidez. Entre as palavras soletradas, é melhor fazer uma pausa curta ou mover a mão direita para o lado esquerdo, como se estivesse empurrando a palavra já soletrada para o lado. Normalmente o alfabeto manual é utilizado para soletrar os nomes de pessoas, de lugares, de rótulos, sinais de pontuação, tais como, vírgulas, ponto final e de interrogação, às vezes, são desenhados no ar. Preposições e outras classes de palavras de que a língua não dispõe são inseridas na sinalização por meio da dactilologia, ou do alfabeto manual.

Ao falarmos em língua de sinais estamos a referir-nos a língua materna/natural de uma comunidade de surdos, isto é, uma língua de produção manuo-motora e de recepção visual, com vocabulário e gramática próprios, não dependente da língua oral, usada pela comunidade surda, que envolve também ouvintes, tais como familiares de surdos, intérpretes, professores e outros.

Segundo Chomsky, todas a línguas possuem um sistema de combinação. A partir de unidades simples, formam-se unidade mais complexas.[17] As frases e sentenças são formadas a partir de palavras; as palavras são formadas a partir de unidades menores, morfemas; e os morfemas, são formadas a partir de fonemas.[18] As línguas de sinais e de sinais se diferem quanto a forma como as unidade são construídas. Segundo Gesser (2009), enquanto as línguas orais tendem a organizar as unidades sequencialmente/linearmente; as línguas de sinais, de uma maneira geral, incorporam as unidades simultaneamente, pois um signo pode ser articulado com uma mão, e outro com a outra, de forma simultânea.[9] Além disso, enquanto as mãos sinalizam itens lexicais, as expressões faciais e corporais fornecem informações discursivas e gramaticais. Mesmo assim, mesmo nas línguas de sinais, a linearidade está presente em todos os níveis de análise: do fonológico ao discursivo. Como por exemplo, nos sinais compostos.[19] Nos sinais compostos, duas unidades preexistentes na língua se juntam para criar um novo vocábulo. Nesses casos, o sinal é realizado em uma ordem linear. Não é possível invertê-la.[1]

Embora existam aspectos universais, pelos quais se regem todas as línguas de sinais, a comunicação visual dos Surdos não é universal. As línguas de sinais não seguem a ordem e estrutura frásicas das línguas orais. As línguas de sinais, assim como as orais, pertencem às comunidades onde são usadas, tendo apresentado diferenças consideráveis entre as determinadas línguas.

Conversa em língua de sinais.
Preservation of the Sign Language (1913)